Apneia do sono

Tratamento para apneia do sono sem CPAP: o que funciona de verdade

Existe tratamento para apneia do sono sem CPAP, com evidência científica, para quem tem apneia leve ou moderada ou não consegue se adaptar ao aparelho: emagrecimento, exercício físico, exercícios de garganta, eletroestimulação, treino respiratório, aparelho intraoral, cirurgia de avanço mandibular e laser. Para apneia grave, o CPAP continua sendo o padrão ouro.

Essa é a pergunta que mais chega no consultório depois do diagnóstico. A pessoa recebe o laudo, ouve “CPAP” e a primeira coisa que faz é procurar qualquer outra saída. E eu entendo. Por isso quero abrir cada opção, com o número de melhora que a ciência mostra, para você saber onde cada uma cabe e onde não cabe.

Sou a Bianca, fisioterapeuta respiratória, há mais de 15 anos acompanhando pessoas com apneia do sono. Nesta conversa, tudo o que eu trouxer de percentual vem de estudo publicado, não de achismo.

Para quem serve tratar a apneia sem CPAP?

Vamos começar pelo que precisa ser dito: o CPAP é o único tratamento que consegue tratar 100% dos casos, do ronco à apneia leve, moderada e grave. Se quiser entender como ele faz isso, o artigo sobre o que é o CPAP e como ele funciona explica o mecanismo.

Os outros tratamentos têm indicação específica. Eles servem principalmente para dois perfis:

  • Quem tem apneia leve ou moderada, na prática até umas 20 e poucas apneias por hora.
  • Quem tem muita dificuldade de adaptação ao CPAP, já tentou aparelhos e máscaras diferentes, tem boa vontade, e mesmo assim o uso é sofrido. Tenho uma paciente com uma alteração congênita na estrutura óssea do rosto para quem nenhuma máscara veda direito. Ela é candidata a outras abordagens.

Hoje a gente classifica os perfis de apneia em fenótipos: o peso corporal, as características anatômicas (um queixo mais curto, uma mandíbula mais para trás), a posição em que os eventos acontecem e o tipo de apneia que aparece no exame. É esse fenótipo que define qual tratamento faz sentido para você, e é por isso que nenhum deles se escolhe sozinho pela internet.

E um aviso antes de começar: se você tem uma condição cardiovascular importante, como fibrilação atrial, o CPAP é padrão ouro. Ele é o que protege o coração, o cérebro e regulariza a oxigenação, que às vezes importa mais do que o número de eventos.

Quanto cada tratamento reduz a apneia?

TratamentoRedução do índice de apneiaPara quem
Emagrecimento (10% do peso)20 a 30%Quem tem sobrepeso ou obesidade
Exercício físico (sair do sedentarismo)20 a 30%Todo mundo
Exercícios miofuncionais de garganta35 a 50%Leve e moderada; quem dorme de boca aberta com o CPAP
Treinamento muscular respiratório10 a 20%Somado aos outros
Estimulação elétrica da via aérea65 a 75% (marca-passo do hipoglosso)Casos selecionados
Aparelho intraoralVariável, com exame antes e depoisLeve e moderada, com mandíbula para trás
Cirurgias de nariz e gargantaCerca de 20%Quando há outra indicação além da apneia
LaserCerca de 50%Apneia leve e ronco isolado, associado a outro tratamento

Os números não se somam de forma exata, mas a lógica do meu protocolo na clínica é justamente essa: colocar uma terapia sobre a outra para chegar mais longe do que qualquer uma chega sozinha.

Emagrecer resolve a apneia?

Para quem tem o sobrepeso como causa, é a primeira abordagem. Dos poucos pacientes que eu já tive que receberam alta do CPAP depois de repetir a polissonografia, todos tinham em comum um emagrecimento importante, seja por cirurgia bariátrica, seja por medicamento.

A conta que a ciência mostra é essa: uma redução de cerca de 10% do peso corporal reduz de 20 a 30% o índice de apneia. Uma pessoa de 130 kg que chega a 117 kg e repete o exame já vai ver essa diferença. Quem perde bem mais do que isso tem uma redução ainda maior.

O contrário é mais cruel: ganhar 10 a 15% do peso piora a apneia mais do que a perda melhora. Essa conta nunca fecha a favor da balança.

E de nada adianta emagrecer só com medicamento e manter o mesmo estilo de vida: muita gordura, muito açúcar, sedentarismo. O sobrepeso vem junto com colesterol alto e risco de infarto e AVC. Emagrecer é uma mudança inteira, não só um número.

Exercício físico trata apneia do sono?

Trata. E não é só para tirar a pessoa do sedentarismo. Quem estava sedentário quando fez o exame e começa a fazer atividade física reduz o índice de apneia em 20 a 30%.

Pensa numa pessoa com 18 apneias por hora. Com 30% de redução, ela cai para 12 eventos. Se a gente associar outro tratamento, pode ser que ela não precise de CPAP de forma alguma.

Uma dúvida que aparece sempre: “treino cinco vezes por semana, ganhei músculo, mas não perdi peso e continuo roncando”. Um quilo de gordura ocupa muito mais volume no corpo do que um quilo de músculo. Quando você ganha massa muscular, nem sempre a balança desce, mas o percentual de gordura cai, e isso é muito significativo. Se mesmo assim o ronco continua, provavelmente a causa não é o peso: é fraqueza da musculatura da via aérea, que a gente vê a seguir.

Para mim, atividade física é igual escovar os dentes. Ninguém pergunta se você gosta de escovar os dentes para decidir se precisa. Alguma atividade você vai ter que gostar, e vai ter que fazer. De quebra, quem libera serotonina e endorfina ao longo do dia tem muito mais chance de liberar melatonina na quantidade certa à noite.

Dá para fortalecer a garganta?

Dá, e essa é a parte que quase ninguém conhece. Pessoa magra também tem apneia, mulher também tem, criança também tem. A causa principal em quem não tem sobrepeso é a falta de tônus da musculatura da via aérea.

O nosso pescoço não tem osso na frente para sustentar nada: de estrutura óssea, só a coluna atrás e a mandíbula. O resto é músculo, mucosa, gordura e pele. A língua é um músculo. Se essa musculatura está flácida, a língua desaba para trás no sentido da cama enquanto você dorme e fecha a garganta. Isso acontece em magros, gordos, jovens e velhos.

A boa notícia é que músculo se treina. Existe uma revisão gigante da Cochrane mostrando que os exercícios miofuncionais melhoram de 35 a 50% o índice de apneia. É uma evidência fortíssima. Eles servem para apneia leve e moderada e também para quem usa CPAP e mantém a boca aberta durante o sono, porque ajudam muito no selamento labial.

O passo a passo desses exercícios, com a dose certa, está no artigo sobre exercícios para apneia do sono. Aqui fica o essencial: são exercícios de língua, palato e mandíbula feitos na frente do espelho, em 3 séries de 10 a 15 repetições, 5 vezes por semana, e precisam ser prescritos individualmente pelo fonoaudiólogo ou pelo fisioterapeuta respiratório depois de uma avaliação.

E por favor: faixa anti-ronco e queixeira não são tratamento de apneia. Se a pessoa para de respirar e ronca justamente para voltar a respirar, uma faixa que impede a boca de abrir está impedindo a respiração. Nunca use isso sozinho.

Eletroestimulação funciona para apneia?

A eletroestimulação é um recurso da fisioterapia. A gente coloca eletrodos na região do hipoglosso, o nervo que comanda a língua, e gera contração muscular. Associada aos exercícios, ela aumenta a efetividade do fortalecimento. Já existe até equipamento comercial específico para apneia do sono com essa proposta.

Existe também a versão cirúrgica: o marca-passo do hipoglosso. Um eletrodo implantado embaixo da pele, com um controle externo que a pessoa liga na hora de dormir e desliga ao acordar. Durante a noite ele faz contrações sutis, que não acordam. O estudo STAR, um dos maiores da área, acompanhou esses pacientes por cinco anos e mostrou redução de 65 a 75% no índice de apneia. É tirar alguém de 100 apneias por hora para 35. Mas tudo tem o outro lado: já houve casos de necrose grave na região do implante que precisaram ser retirados.

A eletroestimulação tem contraindicações. Quem tem lesão ou dor no trigêmeo não pode. Implante metálico e prótese metálica no dente também não são indicados, e nem pele com lesão ou erupção. Quem tem disfunção da articulação da mandíbula pode fazer.

Treinar a respiração ajuda?

Essa é a minha área. Existem equipamentos que avaliam a força dos músculos respiratórios, e o mais importante deles é o diafragma, responsável por 80% da respiração. Dá para medir quanto de força ele faz e treinar essa força com carga, como se faz na academia.

Sozinho, o treinamento muscular respiratório ajuda em cerca de 10 a 20% do índice de apneia. Não é o maior número da lista, mas ele não vem sozinho: somado ao fortalecimento da garganta, à eletroestimulação, à redução de peso e ao exercício físico, o ganho é muito alto.

E o ganho não é só na apneia. Esse protocolo melhora a capacidade funcional, o cansaço ao longo do dia, a qualidade do sono e a função pulmonar. Quem faz uma espirometria antes e depois vê a diferença. É um ganho de vida global.

Aparelho intraoral resolve?

Não tenho como falar de outros tratamentos sem falar do aparelho intraoral. Mas existem aparelhos e aparelhos.

Aquele que se compra na internet, amolece na água quente e molda na boca não conta. Se a sua experiência ruim foi com um desses, você não usou aparelho intraoral. O de verdade é feito por dentista, sob medida, e precisa permitir o movimento da mandíbula para frente, para trás e para os lados, com os dentes quase fechados. Se o seu mexe só para frente e para trás, pode não estar no ideal.

O ideal é fazer polissonografia antes e depois, para titular o avanço e confirmar o resultado. Para apneia grave, acima de 30 eventos por hora, ele não é suficiente na maioria dos casos. Para leve e moderada pode ser uma boa opção, desde que bem indicado: se a língua tem muito volume, muita gordura e muita flacidez, trazer a mandíbula para frente não impede que ela desabe para trás. Foi por isso que uma seguidora usou o aparelho por mais de um ano sem efeito nenhum: o fenótipo dela não era o indicado.

Um uso que pouca gente conhece: o aparelho intraoral associado ao CPAP. Essa semana comparei o relatório de um paciente nas duas situações, só o CPAP e o CPAP com o aparelho, para ver se o aparelho controlava o vazamento pela boca. Funcionou: menos de uma apneia por hora, sem escape de ar. Não é padrão, não é para todo mundo, mas existe.

O custo de um tratamento completo fica na casa de 2 a 5 mil reais, quase o preço de um CPAP.

Cirurgia cura a apneia do sono?

Depende de qual. As cirurgias de nariz e garganta, como correção de desvio de septo, palatoplastia e a retirada da úvula, eram muito usadas até uns 15 ou 20 anos atrás. Uma cirurgia muito bem-sucedida, num indivíduo jovem, ativo e de peso normal, melhora cerca de 20% a apneia. É uma das que menos melhora nesta lista.

Isso não quer dizer que não valem. Um desvio de septo importante, que atrapalha a respiração durante o dia, tem que ser corrigido, e depois fica mais fácil adaptar ao CPAP, com pressões mais confortáveis. Mas para a apneia especificamente o benefício é pequeno. Tenho seguidor que fez septoplastia e uvulopalatofaringoplastia, era magro, e voltou a roncar três anos depois.

A cirurgia ortognática é diferente. Ela faz, de forma estrutural, o que o aparelho intraoral faz: avança a mandíbula. O avanço mandibular tem efeito direto na apneia e, para leve e moderada, o efeito é significativo. A Academia Americana de Medicina do Sono tem uma diretriz de 2021 só sobre cirurgias, e esses procedimentos também melhoram bastante o ronco.

E o laser para apneia?

O laser mais falado é o mesmo tipo usado há tempos em tratamentos estéticos de pele. Ele faz microlesões na mucosa do palato e da úvula, essas lesões cicatrizam, contraem e melhoram o tônus da região. Já existem centros no Brasil aplicando para apneia.

O que os estudos mostram: para apneia leve, até 15 eventos por hora, e ronco isolado, a melhora fica em torno de 50%. O problema é que ainda são estudos pequenos, com poucas pessoas, e em ciência a gente precisa de dados que reflitam uma parte grande da população. Os trabalhos mais recentes já trazem o laser associado a outra abordagem: aparelho intraoral, exercícios, eletroestimulação. Sozinho, ainda não é suficiente.

Posição de dormir e cabeceira contam?

Contam, quando a apneia é posicional. Isso aparece com clareza na polissonografia: você teve mais eventos deitado de costas ou de lado? O índice de apneia sozinho não responde tudo. Olhe a posição, o tipo de evento, a oxigenação.

Quem tem apneia posicional pode entrar com terapia de posição, mantendo a posição em que tem menos eventos, e somar os outros tratamentos. Cabeceira elevada em pelo menos 35 graus, com aquelas cunhas antirrefluxo, também ajuda.

Dá para largar o CPAP com esses tratamentos?

Uma pergunta que recebi na live resume tudo: “se melhorar 60%, eu ainda preciso do CPAP pelos outros 40%?”

Depende do seu índice de partida. Se, com os tratamentos associados, a pessoa chega a menos de 5 apneias por hora, mantém esse resultado por 2 a 5 anos, tem boa saturação de oxigênio e não tem sintoma relacionado ao sono, eu sou muito positiva em pensar num tratamento sem CPAP. Muito positiva.

Agora, se a dificuldade é a adaptação, e não o índice, vale ler antes o artigo sobre quando a vontade é parar de usar o CPAP. Quase sempre é ajuste, não falta de opção.

O essencial, em 30 segundos

  • O CPAP é o único tratamento que serve para 100% dos casos. Os outros têm indicação específica.
  • Os tratamentos sem CPAP são para apneia leve ou moderada e para quem não consegue se adaptar ao aparelho.
  • Os que mais reduzem a apneia: exercícios de garganta (35 a 50%), emagrecimento e exercício físico (20 a 30% cada).
  • Aparelho intraoral tem que ser feito por dentista, com exame antes e depois. Não serve para apneia grave.
  • Cirurgia de nariz e garganta melhora só uns 20%. O avanço mandibular é outra história.
  • Faixa anti-ronco não é tratamento. Sozinha, é perigosa.
  • Tudo começa pelo seu fenótipo, e isso se descobre na avaliação, não na internet.

O próximo passo

Se você ainda não sabe se tem apneia, o caminho é conferir os sinais de apneia do sono e fazer o exame. Se já tem o laudo na mão, a primeira decisão não é “CPAP ou não CPAP”: é entender o seu perfil e montar o tratamento certo para ele, que pode ser um só ou vários somados.

É isso que eu faço na consulta, por videochamada, de qualquer estado ou país. Me chame no WhatsApp e a gente olha o seu exame juntos.

Conte comigo.

AVISO: Este conteúdo reflete a experiência clínica e opinião profissional da Dra. Bianca Horongozo. Consulte seu médico ou fisioterapeuta especialista em sono para orientação individualizada.

Quer isso aplicado ao seu caso?

Conteúdo ajuda, mas cada caso é um caso. Do exame domiciliar à adaptação completa ao CPAP, com acompanhamento humano.